terça-feira, 14 de abril de 2015

SOBRAS DE DEUS | Capítulo II | Parte 4



II - CÉUS REMOTOS


4

Adorava quando íamos àquela casa. Um sinuoso caminho desenhava-se como a aventura maior em dias tão iguais. Um velho me aguardava para o jogo de cartas. Sempre ouvia a mesma sentença:
- Não te esqueças, menino: ele não deve ser contrariado.
Claro estava que o vício maior não era o relancinho, mas antes o ludíbrio. Não podia suportar o mundo sem uma boa trapaça. Certamente havia sido um mestre entre burlões, hábil histrião no remate de ilusões. Com o tempo, já bem velho, dera a cartada final: ensandecia quando contrariado, dava de berrar e jogar ao chão tudo o que encontrasse pela frente. Todos em casa se deixavam levar por aquele último golpe. Nada ou ninguém deveria contrariar o Coronel Argemiro. As mãos trêmulas agiam sem precisão ou elegância. O roubo não era mais ilícito, protegido agora por estatutos ainda mais cínicos.
- Olhe ali, menino.
Apontava com o dedo. Ao meu olhar desviado, engordava a mão de cartas. Todos na casa endossavam-lhe a insolência ao converter velhacaria em infância reconquistada. “Naquele tempo, para ele, conquistá-la não foi tão simples”, diziam as filhas, imprudentes. Agora se vinga de tudo. Talvez fosse esta a razão de minha admiração por aquele patife. De alguma maneira eu me divertia sendo trapaceado por meu bisavô.
- Pronto, pronto. Já chega de jogo por hoje.
Ir vê-lo era um hábito que preenchia as tardes de sábado. Lindalva era a pessoa mais nova da casa. Cuidava de tudo, da comida e das estranhezas de Argemiro. O velho consumia as horas do dia em um relicário de rabugices e artrites. Fumava desregradamente cigarros sem filtro, e tossia como se expurgasse a própria alma. Logo descobri que até mesmo a patente que ostentava era uma farsa. Não passava de um amalucado chefe de estação ferroviária, que obrigava a todos a chamá-lo de Coronel. Lindalva dava-lhe banho e o punha na rede, bem penteado. Aquietava-se atento à voz dela, lendo François Villon: “Je plaings le temps de ma jeunesse, / Ouquel j’ay plus qu’autre gallé…”
Indaguei-lhe algum dia a razão daquela leitura em francês, alegando não compreender o que diziam os versos.
- Uma bobagem qualquer sobre a juventude. Tenho tudo isto de memória. Mas gosto de Lindalva esquartejando o ritmo do poema, o olhar mal disfarçando horror e temeridade diante da ingrata tarefa. É com o que mais me divirto. Os poemas já não me interessam tanto.
Na varanda balançavam-se em cadeiras três de suas filhas. Desfiavam os queixumes de sábado. Ali fui recolhendo sombras, vultos, fantasias, como figuras de um álbum de recortes. Aos poucos tornava-me íntimo de parentes que ainda não havia conhecido. Ouvia contadas histórias de Alfredo Aquilino, o louco irmão, segundo diziam. Entre elas, a dos nós que deu nos cabelos de uma mulher, no ambulatório onde ambos se encontravam, enquanto esta dormia. Chateara-se porque a infeliz não lhe quis ouvir uns poemas. As irmãs desfilavam aflição. Nutriam pelo irmão uma benevolência assustada, sem um zelo mínimo de afago. Eu ria guardado em mim, ansioso por conhecê-lo.
Uma tarde, enquanto ainda ouvia a voz de Lindalva:

Hé Dieu! Se j’eusse estudié

Au temps de ma jeunesse folle,
Et à bonnes meurs dedié,
J’eusse maison et couche molle
Mais quoy? Je fuyoie l’escolle,
Comme fait le mauvais enfant…
En escripvant ceste parolle,
A peu que le cueur ne me fent.

Deus deve ter se entretido com os versos de Villon ou a displicência indisfarçável de quem os lia, trotando um francês coxo, e não deu por conta de um verdadeiro ato seu: um homem ateando fogo em si mesmo. Era o que se ouvia:
- Corre a ver o que se passa com esse cheiro de queimado.
- Alfredo, Alfredo, meu irmão!
Batiam na porta do último quarto ao final do corredor e a fumaça desarranjava o pôr do sol. Em meio ao pânico desatado, o que parecia repudiável era a ameaça à parcimônia de uma tranquilidade apeada naquelas tardes. Mas parecia mesmo haver algum fogo.
- Com que diabos…!
O Coronel acendia mais um cigarro e resmungava. Era uma correria desmedida. Lindalva tentava acalmá-lo. As três irmãs afligiam-se.
- Ah meu Deus, o que terá feito ele?
- Alfredo, abre essa porta. Abre, por favor.
Lindalva saltava de seu posto:
- Melhor chamar seu Conrado. Não há quem possa arrombar uma porta entre nós.
- Quero o meu Villon…
- Coronel, é seu filho, Alfredo, que está pondo fogo na casa.
- Pois que o faça. Que diabos me importa o fogo… Sem meu Villon eu me cago todo.
- Alfredo, anda, abre a porta.
- Calma, Coronel.
Logo chegou o jardineiro que trabalhava na casa de Conrado, o vizinho de frente. Era perto das seis. Não haviam servido a fornada costumeira de pastéis, ladeada pela jarra de suco. Começava a ficar com fome.
- Não!!!
O velho começou a peidar alto e a sujar-se por inteiro. Bramia em francês irado e banguela:

Je plaings le temps de ma jeunesse,
Ouquel j’ay plus qu’autre gallé…

- Ah meu Deus!
Aníbal, o jardineiro, esmurrava a porta, espancava e esmiuçava as reais condições de socorro.
- Daqui não se passa, senhoras. Não faço ideia do que tenha por trás.
Lindalva não suportava tanta atribuição e fedor.
- A janela, a janela…
Correram todos. Ficamos, o velho cheio de merda e eu, sem nada entender. Fui atrás de ar, ainda sonhando com meus pastéis. O musculoso jardineiro acabara de arrombar a janela.
- Graças a Deus!
- A mangueira, rápido. Traz a mangueira aqui.
O guarda-roupa havia sido empurrado até a porta. O fogo ateado nas roupas. O ar queimado por completo. Empurrado o móvel, aberta a porta, um corpo desacordado na cama.
- Villon… Villon… ou me…
O velho já estava como ameaçara, o que tornou o rastilho de incêndio um drama menor naquela tarde de rapinagens em que acabei sem os pastéis. Olhava, no entanto, o célebre e desorbitado Alfredo Aquilino, fidedigno ao falatório a seu respeito. Era uma figura marmórea, quase fúnebre, mas certamente pude entrever ali - ou fantasiar, decerto - uma reserva incurável de lucidez.
A esta altura a tarde já havia caído de si. A avó tinha que voltar, e me fui dali o estômago roendo de fome, marcado pela ventura de haver conhecido o tio tão falado.



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SOBRAS DE DEUS | Capítulo II | Parte 3



II - CÉUS REMOTOS


3


Não recordo angústia mais latejante provocada pela asma. Ou talvez tenha sido uma ambição maior do espírito. Chafurdar-se em agonia até não poder mais entender a totalidade do céu-templo. Tornar os sentimentos uma intensidade de mal-entendidos. Há uma ironia em tudo isto: o homem se fez um antípoda de si mesmo. Julgamo-nos inconfessáveis. Não há continuidade em nossos feitos. Limitamo-nos à dor da perda momentânea, a um aniquilamento em face do súbito desenlace. Satisfazemo-nos com a melancolia, uma diaconisa da veleidade. Morto tio Eudoro, embaralho toda a minha vida. Torno-me um espectro hipócrita em fulgurante estupidez. O morto conserva o crânio de nuvens, voos de flores, um quartilho de essência a renovar-se, uma cisma, no mínimo. Um morto nunca morre em si. Como espatifar-me em pesadelo em inapreciável jogo da angústia? Uma operação confusa, a da perda de continuidade. O morto não pode ser a mobília da dor. Não há honradez nisto. Nem mesmo a memória sobrevive a tamanho desleixo.



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SOBRAS DE DEUS | Capítulo II | Parte 2

II - CÉUS REMOTOS

2

Duas ou três ligações. Logo já estávamos no hospital. O largo e minúsculo corpo de Eudoro Antunes lentamente escurecendo sobre o leito. Em meio à agitação de olhares, o derrame agônico dos murmúrios, lágrimas mal dissimuladas, pude entrever seus últimos instantes. Há muito - na verdade - já estava distante de tudo aquilo. Acreditavam todos que seu diálogo único era com a bebida, poucos sabendo tratar-se de outra matéria a solidão. Jamais conhecera pessoa igualmente disposta a fundir-se na experiência alheia. Estranhado, foi destilando mordacidade até encontrar-se com a rejeição. Tio Eudoro sempre aparecia na casa da avó, com a enorme pasta, mostruário de drogas caseiras. Levava consigo o gosto de álcool no hálito.
- Pequeno, sonhei tanto com alguma mínima forma de transcendência. Mas vou acabar meus dias matando os outros. Vender remédios foi tudo o que pude fazer na vida.
Na velha cristaleira na sala de refeições havia uma garrafa de licor, cujo conteúdo tio Eudoro cuidava de fazer desaparecer, a cada visita, até que novamente, sem que ele percebesse, a avó o completasse.
- Sabe o que diabos vejo na bebida? Não, não sabe. Ninguém sabe.
Outras vezes desatava a falar de amantes que jamais conheceu. “As danadas são como vetustas sombras do desejo”. Da mulher dizia ser a antífrase da razão. Para ter-se com uma não havia maneira mais dada senão desfazer-se da outra.
- Por vezes penso que fui regurgitado por ambas senhoras, vestais iníquas e estouvadas, safadas bíblicas.
Todas aquelas pequenas cenas projetadas pela memória foram dissipadas de uma só vez pela súbita dor no braço, uma das tias-avós me retirando do quarto do hospital.
- Isto não é lugar para uma criança.
Em casa, Mãe Dolores era a única a me reconfortar. Com ela, criança podia tudo. E não hesitou em me dizer que tio Eudoro havia morrido. Sentei-me a seu lado, no chão, a cabeça baixa, a mão cuidando de algumas lágrimas em meu rosto. Toda a memória voltada para aquele tio, recordando-lhe as palavras:
- Toma, filho.
Então fazia com que a moeda desaparecesse de suas mãos. Nada mais havia ali para ser tocado.
- Tudo o que vemos, Pequeno, é o intocável. Na virtude o que vemos não é senão a impostura, a hipocrisia. A ingenuidade nos chega sempre na forma de ignorância. Um dia compreenderás.
Tio Eudoro trazia alegria àquela casa. No entanto, todos lhe recebiam com ar suspeito. Por vezes ouvi da boca das irmãs:
- Dá pena ver um homem tão bom sendo desfeito pela bebida.
- Tio, me deixa tentar pegar a moeda outra vez.
Impossível. Era um sacerdote de meus enlevos. E encantava-me ainda com inúmeras histórias:
- Um dia o deus do tempo engoliu uma pedra mágica acreditando que lhe fosse o filho. Ao descobrir o engano a cuspiu o mais longe. A pedra converteu-se em um objeto sagrado, cultuado por quantos vissem nela a imagem de uma deusa presciente.
E logo completava:
- Que coisa absurda, cuspir o próprio filho como se fosse um pedregulho…
E ria o mais que ria.
Na noite em que morreu acordei atormentado por um pesadelo. Muitos dos livros que eu já lera estavam sendo escritos naquele exato momento, os autores espalhados por um lugar sem fim, sentados em pedras, troncos de árvore, agachados, derreados, recurvados, deitados, a escrever as páginas que para sempre me acompanhariam. Fyodor ocupava-se das pesarosas consciências, Hyde disfarçava-se em Stevenson, Swift traçava as andanças de Gulliver, Edmond rasurava e refazia o périplo de Dumas, o enigmático Doyle dissecava o improvável, e todos se embriagavam e riam com estardalhaço. Páginas e páginas se misturavam, germinantes e germinadas, e asfixiava-me um odor múltiplo, híbrido, vindo de todas aquelas garrafas e da tonitruante revoada de risos, esgares, imagens, rapsódias da vertigem, devaneio instigado, suores fétidos, Unkas, Lord Jim, Drácula, páginas e páginas se misturando, Bruce Wayne e Lady Macbeth, anjos caídos nelas, emboscados, trocando bebidas, salseiro de risos, aflitivos engodos, motim, saltério e poções mágicas, roteiros esgarçados, sabás e múltiplos teoremas, meu peito ardendo, arfante, o ar rumorejando, faltando…
- Chama o médico, rápido. Pequeno está com crise. Deus! Não quero perder mais este filho.
Ao despertar me deparei com dupla aflição: a da mãe e a de meus pulmões em busca de ar. Desfazia-se ainda, não sem relutância, a angustiante cena em que personagens e autores se mesclavam em um mapa imaginário da memória, entrançados, como paradigmas embaraçosos da própria existência humana.
A luz vinda do teto desfazia com violência todo juízo estético. Não havia senão a perspectiva de morte por asfixia. Todo o meu ser estava possuído por uma quase absoluta falta de ar. Gritava com todo o olhar. E a cada átimo, recolhia insuspeitas fortunas da eternidade, estojos miraculosos do infinito com as ramagens precipitadas sobre o acaso. Tudo ali, como na autópsia de um caracol.
- Filho, responde!
A voz da mãe era como o som ferruginoso de pesados ferrolhos sendo destravados. Aos poucos me precipitava de volta, interrompendo o perigo e as impudentes diversões. Redesenhava sombras, contornos, aos poucos os rostos ao meu redor. O do pai nunca entre eles, sempre em suas viagens.
- Fala comigo, filho!
Naquela noite não pôde vir tio Domênico, ausente da cidade. Logo trouxeram outro médico, porém já me encontraram nos braços da mãe, reconfortado por seu amor.




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SOBRAS DE DEUS | Capítulo I | Parte 1


No hay infierno que no sea la entraña de algún cielo.

María Zambrano

I - CICLO PRIMEIRO DE SACRIFÍCIOS

1

Não havia propriamente um cenário. Luzes se misturavam, desconexas. Quadros, esboços, situações cabíveis em divergentes relatos. Indagar sobre o passado era uma abstração beirando o ridículo. Havia um desmazelo na atitude de cada uma daquelas vidas. Um antes raras vezes identificado. Assemelhavam-se a uma irrepreensível matéria bruta. Como escrever uma novela a partir daí? Repetir incessantemente cenas, rostos, memória deixando-se envelhecer, tudo se desgastando, aos pedaços e sem um mínimo cálculo? Ou um texto devotado à repetição, porém contra toda forma de ascese? Primícias de nada, céleres afagos da vertigem. Aquelas pessoas não tinham - jamais tiveram? - a pretensão de chegar a condição alguma. Quando muito, o testemunho da própria (e ainda assim vaga) existência, tão logo o tempo escoasse todo um ciclo de sacrifícios, perversões, abandonos. Impossível definir o que poderemos ser aqui. Personagens? Decerto. Porém não elegemos essa via árdua, nem viemos dar nela por não haver outra saída. Nenhum acesso do que se é chega a explicar o que se alcança: abismo, túmulo ou farol. Entre estudos verbais e estados oníricos, nos mutilamos e recriamos, em estúpido e franco desatino. O que esperar de uma novela assim? Nada. Nem se poderia. As novelas não possuem tal função. Não são estorvos ou válvulas de estupros. Os pobres de espírito é que esperam algo de Deus. Talvez um pérfido demiurgo, pelo acúmulo secreto de ignomínias, espere algo do efeito da trama que lhe outorga a crédula horda. Adiantemo-nos todos até uma próxima coxia, a esperar algo, com ar introspectivo, cientes de que o acaso - ou mesmo um simples caso, o fato sem transcendência alguma - nos visita com parcimônia em uma ensolarada manhã de domingo. Sentados, escreveremos uma mesma e atônita novela de nossas vidas. Ensolarados e anônimos, não somos senão mofo e presunção. Uma novela se faz assim? Quem tanto as lê, deverá sabê-lo.






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sexta-feira, 6 de março de 2015

Una arriesgada encarnación de William Blake



Nací en noviembre de 1757. Mis padres eran fabricantes de medias. Desde niño las visiones han sido mi deleite, poco común. A los cuatro años, grité al ver  en una ventana impreso el rostro de Jesús. Mis padres no me creyeron y, por sugerencia de mi madre, terminé por desmentirme para evitar una paliza de mi padre. A los 11 años, una vez más, me visitó otra visión. En esta ocasión se trató de un árbol repleto de ángeles con alas relucientes como estrellas. Entre todas ellas la que más me cautivó fue la visión del funeral de un hada, su cuerpo se posó sobre el pétalo de una rosa. Mi vida siempre cercada de ángeles. Luego que empecé a escribir mis cantos, esas figuras se presentan dominando las imágenes, conversan conmigo, me llevan consigo por un mundo  espantoso de luces y magia.
Cuando cumplí  15 años, ya dibujaba y escribía, mi padre me inscribió en el taller de grabado de James Basire. Por siete años me puse a copiar la obra de grandes maestros y también a esbozar mis  propias ideas. Cautivado por la obra de Da Vinci, Rafael, Miguel Ángel, al mismo tiempo  me atraían los dibujos góticos que se repetían con frecuencia en las tumbas y en la estatuaria de la Abadía de Westminster. Esta combinación de milagros de la creación definirán las minucias esenciales de lo que realicé en toda mi vida.
En 1779 fui admitido como grabador de la Royal Academy School, donde hice mi primera exposición, a los 23 años. En esta misma academia hice otras cinco exposiciones individuales. Y, gracias a ella me convertí en un grabador con participación en el  mercado de publicidad, aunque la crítica jamás haya reconocido el valor de mi trabajo.
Estos fueron los años en los que tuve mi único desencanto amoroso, algo que por suerte fue definitivamente borrado de mi memoria al conocer a Catherine con quién  me casé en 1782. A pesar de tener el mismo nombre que mi madre, lo que en ella me tocó con la fuerza de un presentimiento fue la certeza de una predestinación. Catherine era hija de un modesto jardinero, no tenía instrucción alguna, y me conoció en un momento  doloroso de desventura amorosa y soledad moral. Yo le enseñé no solo a leer y a escribir, sino también el arte del grabado y a colorear mis dibujos.
Estos primeros años de vida con Catherine coinciden con la muerte de mi hermano más joven, Robert, con quien montamos un taller en un barrio popular. Los tres juntos llevamos una vida bien fértil combinando creación, afinidades y alegría de vivir. Cuando Robert se fue, en 1787, es intenso el vacío que su muerte provocó en mi alma. Menos de un año después, me visitó su espíritu y me enseñó la técnica de mezclar poema e imagen en una misma plancha de metal. Yo no sería nada sin la muerte de mi hermano y sin la presencia física de mi mujer. Yo soy hijo de mi hermano.
Mis primeros experimentos siguiendo las orientaciones de mi hermano se contrastan entre sí como las dos caras de una misma moneda. Las canciones de la Inocencia están ambientadas en mis visiones angelicales, con su creencia en la naturaleza humana, presagios, imágenes oníricas. Cinco años después, cuando publico Las canciones de la Experiencia, la revolución francesa había ensordecido aquel joven que escuchaba el inocente llamado del cordero. Todo lo que yo veía delante de mí era un mundo de terror, la visión de una tierra devastada por el descreimiento, de una noche destrozada por simulaciones agónicas. Mis ángeles se convertían en tigres. Al escribir el último poema de este libro yo ya había perdido mi inocencia.

La Crueldad  tiene  Corazón Humano
Y la envidia un Humano Rostro;
El Terror la Humana Forma Divina
Y el Secreto el Ropaje Humano.

Este era el fruto actual de mis visiones. El horizonte caótico de las expectativas sociales alimentándose del prejuicio religioso y de la miseria filosófica. No era posible observar el mundo sino por la lente de una alegoría, al mismo tiempo en el que la alegoría jamás salvaría al hombre de los destrozos de sus equívocos. Lo que eventualmente nos distancia del restante reino animal es que no podemos vivir solamente para nosotros mismos, para la fabulosa soberanía de la especie humana sobre las demás. Y tanto llevamos esta superioridad en serio que nos tornamos superiores a nosotros mismos, al establecer una clase de valores que dignifican a  unos y subordinan a otros. El hombre es una especie rara de contradicción en la naturaleza. Y su pecado más grave fue haber inventado la religión como una forma de disuadir la humanidad de su esencia común incondicional.
Por veinte años pude realizar mis trabajos gracias a los intereses de los patrocinadores que confiaron en mi dedicación y, también en mi dedicación a algunas de sus  sugerencias. Todos los seguidores de una secta son tan esclavos como soldados en campos de batalla o en regímenes militares. Fui acusado como sedicioso y lunático por pensar así. Político o religioso, el poder jamás aceptará ser impugnado. No soy profeta de nada. La humanidad perdura en sus tinieblas, siempre dedicada a las facilidades del caos.
Yo dije muchas veces que el hombre solamente se comunica con el Paraíso a través de la poesía, de la pintura y de la música. Yo creo que el hombre se hizo a sí mismo en la condición de un creador, cuyo destino es marcado por la percepción y no por la razón. El hombre existe apenas para crear. Este es su único evangelio. En la naturaleza existen tantas formas como las que yo puedo concebir, tangibles o no. Lo que me acercó a Jó o a Dante fue el entendimiento de que la debilidad espiritual del hombre lo lleva a inventar tanto una divinización autoritaria de sí mismo como a una horda de seguidores. La vida humana es natural y su incondicionalidad radica exclusivamente en la fluidez de esa naturalidad.
Cuando bosquejé a los cuatro Zoas imaginé un mundo en el cual pudiéramos recuperar la identidad original. Somos la obra laberíntica de todas las nuestras ilusiones y alusiones, lo que nos toca ver y desear, crear y recordar, explicar o no. Somos frutos del amor y gracias únicamente a él todas las formas se unen, se funden en solo una. Solamente el amor ambienta nuestras contradicciones. El amor es un trazo únicamente humano. Los dioses no aman, tampoco lo hacen las babosas o los unicornios.
Viví una época patrocinada por un horror sacrílego a la Imaginación. Dios se oponía a toda y cualquier visión espiritual. No debería más ser aceptado como señor del amor y de la bondad, pero sí como un filtro que establece la alabanza como norma, en lugar de la afinidad. Dios no era más humano. Había sido convertido en catedral y papiro. Yo fui culpado por  oponerme a mi tiempo, en todas sus limitaciones  –por mi concebidas como tales, dijeran–, pero lo que siempre tuve en mente es que no hay nada más fundamental en la vida del hombre que no sea crear y crear y crear. Por lo que debemos poblar el espectro de la existencia humana: con nuestras creaciones.
Así surgieron personajes en mis escritos que se destacan por la discordancia entre ellos, firmando una recusa frontal a la ortodoxia. Yo busqué todas las voces. No apenas para oírlas, si para  encarnarlas. Siempre quise saber cómo ellas reaccionarían dentro de mí. El mundo es la casa de todos, jamás podremos imponer a nadie nuestras convicciones o expectativas. Los siglos se amontonarán y el hombre seguirá repitiendo mi error.
Todas las ventanas construidas como una forma para que nos conozcamos a nosotros mismos, y también a nuestras posibilidades infinitas, serán tomadas por la misma limitación, la de la  imposición de una visión. Yo tuve mi vida pautada por una secuencia inagotable de visiones y jamás alguna de ellas se impuso delante de mis ojos como una razón única. El hombre siempre tuvo bondad en su corazón, pero siempre la rechazó. Esta tal vez sea la única carta del naipe existencial que yo jamás comprendí.
En el día 12 de agosto de 1827, me morí. Yo no estaba propiamente cantando sobre las cosas que veía en el  cielo. Canté toda mi vida, anclando mis abstracciones en una melodía. Tanto la imaginación como la razón carecen de ritmo. Catherine estuvo conmigo en la hora de mi muerte. Yo siempre conté con ella para que ella fuera mi infinito. Catherine es mi horizonte y sé  que sobrevivo en ella.
Cada muerte recoge sus páginas aparentemente dispersas y busca limitar los efectos de un brillo peculiar con el cual jamás se identificará. La vida es generosa en su escala de disensión. La muerte contrató un teatro de fantoches para garantizarle perpetuidad. ¿Quién es el implacable tirano: el que nos impone la vida o su extinción? ¿Cómo crear reglas destinadas a lo que no comprendemos? Tus obras rebeldes pueden ser enterradas contigo. Nadie estará aquí mañana. Tu tumba debería estar  lejos del júbilo de tu memoria. Pero la última tumba parece ser la única forma con la cual los muertos participan de la vida.



[Este texto es un extracto de un guion inédito para novela gráfica, dedicado a la vida y a la obra de William Blake. Traducción al español Eva Schnell.]





terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A ESCRITA INSONDÁVEL | Ensaio fotográfico




Muito mais do que ser um simples instrumento para reproduzir a realidade, a câmara fotográfica se converteu em um valioso meio pictórico. Nas mãos de um poeta – pois de poesia sempre se trata – as lentes se convertem no que André Breton chamou de “observatórios do céu interior”. Disto já sabiam bem os primeiros astrônomos imbuídos de hermetismo, que manipularam telescópios e microscópios, percebendo na imensidão a harmonia das esferas. O Romantismo descobriu as possibilidades poéticas que a fotografia acrescentava ao nosso conhecimento da realidade. Explico: emprego o verbo conhecer em seu sentido bíblico, que é o ponto de partida de Floriano Martins para reproduzir as composições que surgem magicamente do interior de seus aparados fotográficos.

Digamos então que os fluidos vitais de suas imagens correspondem a outras evidências, surpreendidas pelos surrealistas a partir da invenção do collage por Max Ernst. Como resultado daquela descoberta, a alquimia que também emprega a linguagem erótica se instaurou como um meio de intuir o que o véu da chamada realidade escondia. Para Floriano Martins as leis do funcionamento da fotografia, aparentemente inalteráveis, ficaram transgredidas da mesma maneira que sucedeu com a justaposição de realidades opostas nos collages do pintor nascido nas margens do Reno. Floriano Martins começa então sua longa e vigorosa exploração do mundo exterior correspondente com o interior, como sempre quiseram os discípulos de Hermes.

As fotos eróticas de Floriano Martins constituem, neste sentido, a expressão de uma arte que os alquimistas praticaram mediante suas permutações. Em seu caso a carnalidade das imagens nos brindam a chave de uma ars combinatória em vias de se transformar em ars amatoria, onde as zonas erógenas se mantêm em contato voluptuoso, ao mesmo tempo em que parecem sussurrar versos retirados da grande tradição da poesia amorosa de todos os tempos.

Carlos M. Luis





Mucho más que ser un simple instrumento para reproducir la realidad, la cámara fotográfica se ha convertido en un valioso medio pictórico. En manos de un poeta –pues de poesía siempre se trata- los lentes se convierten en lo que André Breton llamó “observatorios del cielo interior”. Eso lo sabían bien los primeros astrónomos imbuidos de hermetismo, que manipularon telescopios y microscopios, percibiendo en la inmensidad la armonía de las esferas. El Romanticismo descubrió las posibilidades poéticas que la fotografía le añadía a nuestro conocimiento de la realidad. Me explico: empleo el verbo conocer en su sentido bíblico, que es el punto de partida de Floriano Martins para reproducir las composiciones que surgen mágicamente del interior de sus aparatos fotográficos.

Digamos entonces que los fluidos vitales de sus imágenes corresponden a otras evidencias, sorprendidas por los surrealistas a partir de la invención del collage por Max Ernst. Como resultado de aquel descubrimiento, la alquimia que también emplea el lenguaje erótico, se instauró como un medio de intuir lo que el velo de la llamada realidad escondía. Para Floriano Martins las leyes del funcionamiento de la fotografía al parecer inalterables, quedaron transgredidas de la misma manera que sucediera con la yuxtaposición de realidades opuestas en los collages del pintor renano. Floriano Martins comienza entonces su larga y enjundiosa exploración del mundo exterior correspondiente con el interior, como siempre lo han querido los discípulos de Hermes.

Las fotos eróticas de Floriano Martins constituyen en ese sentido, la expresión de un arte que los alquimistas practicaron mediante sus permutaciones. En su caso la carnalidad de las imágenes nos brindan la clave de un “ars combinatoria” en vías de transformarse en “ars amatoria”, donde las zonas erógenas se mantienen en contacto voluptuoso, al mismo tiempo que parecen susurrar versos entresacados de la gran tradición de la poesía amorosa de todos los tiempos.

Carlos M. Luis







Far more than a simple instrument for replicating reality, the câmera has become a valuable pictorial medium. In the hands of a poet – as poetry is all-pervasive – the lenses turn into what André Breton called “observatories of the inner sky”. The early Hermetic astronomers knew this already, manipulating telescopes and microscopes, perceiving the harmony of the spheres in the vastness. Romanticism discovered the poetic possibilities that photography added to our knowledge of reality. Allow me to explain: I use the verb “to know” in its Biblical sense, which is Floriano Martins’s starting point to create the compositions that appear magically out of his photo clippings.

Let us say, then, that the vital fluids of his images correspond to other pieces of evidence Surrealists caught starting with Max Ernst’s invention of collage. As a result of their discovery, alchemy, which also relies on the erotic language, stood as a means to guess at what hid behind the veil of the so-called reality. For Floriano Martins, the apparently fixed laws of photography were breached in the same way that occurred with the juxtaposition of apparently opposite realities in the collages of the painter born on the banks of the Rhine. Floriano Martins thus begins his lengthy and vigorous exploration of the outside world in correspondence with the inner one, as the disciples of Hermes always wanted.

In this sense, Floriano Martins’s erotic photographs are the expression of an art that the alchemists practiced via their permutations. In his case, the flesh portrayed in the images give us the key to an ars combinatoria on the verge of becoming ars amatoria, where the erogenous zones remain voluptuously in touch even as they appear to whisper lines drawn from the tradition of the timeless poetry of love.

Carlos M. Luis









***


Carlos M. Luis (Cuba, 1932-2013). Poeta e artista plástico. Dirigiu em seu país o Museo Cubano. Como ensaísta, publicou Tránsito de la mirada (1991) e El oficio de la mirada (1998), além dos seguintes livros de poesia: Simulacro de lo Absoluto (1954), Entrada en la Semejanza (1965), e Nomadic and Archeological Texts (2009).






segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

FLORIANO MARTINS | Na mão de Adão cabem todos os sonhos



MOSTRA FOTOGRÁFICA
Curadoria | Jacob Klintowitz

Quem poderá saber quais novas galáxias Floriano Martins ainda inventará para apaziguar a sua curiosidade febril e aumentar a nossa surpresa e o nosso prazer?

Floriano Martins não é exatamente um fotógrafo, mas um inventor de imagens fotográficas. A máquina, o computador e o laboratório, são seus instrumentos, da mesma maneira que o pincel e o pigmento são instrumentos do pintor. Ele constrói minuciosos cenários, planeja todos os detalhes das cenas ao ar livre e, simultaneamente, se deixa conduzir pelo improviso, pelo que a paisagem, os modelos humanos e a sua imaginação, sugerem. É deste cadinho, que ferve substâncias variadas, que emergem estas encantadoras cenas. Ao mesmo tempo em que parecem infinitas em suas possibilidades de automodificação, estas fotografias têm uma inquietante estabilidade. Estas estranhas cenas e a sua inesperada beleza, vieram para ficar.



A misteriosa mão estendida, recoberta de barro, constituída de barro, mão cerâmica, tem um aspecto ancestral, como se viesse de tempos imemoriais. E é a marca desta série. Mesmo que cada foto seja independente em si mesmo, ainda assim a força da imagem da mão – intuímos que seja capaz de inventar e moldar – simboliza a capacidade de gerar e tornar os sonhos em ficções poéticas e objetivas.  

Mão feita de barro, como o mítico primeiro homem da nossa espécie, o homem feito de barro e animado pelo sopro. O pó da nossa matéria e a alma instalada pelo sopro divino. O barro queimado tornado homem cerâmico pelo vento ardente, o Pai Adão. É neste mito, e à semelhança do mito, onde navega a anima de Floriano. Ele mistura, combina, desconjunta, embaralha, estabelece relações entre imagens diversas e inventa novas visualidades.




E nem poderia ser diferente com a produção destas imagens. Floriano Martins é um criador incansável e múltiplo. Ele criou e dirigiu por 10 anos a Agulha Revista de Cultura, das mais lidas da língua portuguesa. E o Projeto Editorial Banda Hispânica, no qual estabeleceu um diálogo intenso entre as culturas dos vários países de língua espanhola. E é um profundo historiador do Surrealismo na América Latina.  E é um poeta editado em vários países. E um crítico de cultura, narrador, tradutor e autor de letras de canções com variados parceiros. 


Quem é Floriano Martins? Trata-se de um Mestre do Inusitado.









Na mão de Adão cabem todos os sonhos. Individual. Curadoria: Jacob Klintowitz.
Espaço Cultural Citi. São Paulo. Junho a agosto de 2012.